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O que leva alguém a tocar tuba

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Eu fico espantado com o número de pessoas, dentre meus conhecidos, que eram as últimas a serem escolhidas para comporem os times dos esportes coletivos no colégio. Por um lado é reconfortante. Afinal, não era só eu o pior jogador de seja lá o que for em seja lá qual colégio. Por outro, não faz sentido, pois não há tantas últimas vagas em todos os times já formados em todas as escolas primárias do mundo. Talvez seja um fenômeno explicado pelo agrupamento dos iguais.
Naturalmente, os menos dotados esportivamente se reúnem em grupos sociais bem definidos e, então é comum que quando alguém diga:
- Sabe… eu sempre era o último a ser escolhido nos times do colégio…
Daí você escute:
- Eu também!
- Eu também!
- Pois é… eu também… Isso quando eu não ficava no time reserva.



Se alguém me chamava para completar o time, pode ter certeza de que eu jogaria como goleiro. Ninguém quer jogar como goleiro, a não ser aqueles que têm a natural vocação para a coisa. Abençoados sejam. Pois quando eles estavam por perto era a minha chance de tentar mostrar meus dotes futebolísticos. De outra forma, lá ia eu para debaixo das traves.


De verdade, de verdade, ninguém quer ver um goleiro trabalhar. Quando ele começa a fazer muitos malabarismos, belas defesas e demonstrações de reflexos dignos do filme da trilogia Matrix é sinal de que todo o resto do time vai mal. O fato é que, se houvesse goleiro nos times de voleibol, neles também eu ocuparia essa função. Não sem antes ter sido o último a ser escolhido.A tubaNão há nada de sexy em uma tuba. O som é engraçado - não no sentido de gracejo, mas de cômico e de patético -, o formato é desengonçado e a forma de tocar desajeitada. É fácil imaginar bochechas infladas e rosadas e uma testa suando. Ao se ouvir uma orquestra várias perguntas surgem a respeito das escolhas dos instrumentistas. Afinal, o que leva alguém a tocar fagote, ou oboé, ou contrabaixo?


E para todos há respostas plausíveis. O fagote tem um timbre inigualável e exótico, o oboé, a complexidade e as nuances e até o contrabaixo tem seu glamour, seu apelo e seu tamanho desajeitado - que muda completamente a vida de seu instrumentista - celebrizado pelo monólogo O Contrabaixo, de Patrick Suskind. O contrabaixista é uma espécie de cristo da orquestra que, diariamente, precisa carregar sua cruz. Mas até para ele se consegue respostas. Talvez um certo masoquismo, uma certa megalomania, um certo apego a grandes objetos e a sons graves.
Mas o que leva alguém a tocar tuba? Contingência. Contingência é a primeira palavra que me vem à boca. Como a posição de goleiro. Nem sempre alguém quer assumi-la. Mas alguém tem que fazê-lo. A tuba não é uma amante. Não é nem mesmo uma esposa, a quem mais das vezes se está unido pelos laços burocráticos do matrimônio. Ela é uma tia bunduda.Como se tornar tubistaConsigo imaginar a história de alguns tubistas - é assim que se chama? O sujeito, em casa, descansa. Assiste algum seriado na tevê e o telefone toca.
- Opa! Beleza, Antenor? Precisamos de alguém na nossa orquestra…
- …
- Pois é! Falta um músico…
- …
- Não importa que você não saiba tocar nada… aprende o básico na hora e o resto vai sem pressa…
- …
- Vem pra cá. Acho que já tenho até um instrumento pra você…
- …
- Ninguém quer tocar porque é… bem… meio complexo…
- …
- Não, não… você pega com facilidade… não importa se é complexo. O importante é que ele é um grande instrumento. Essencial e único. Na hora eu digo qual… é… ahn… surpresa…
Sim. O fato é que, em princípio, ninguém quer tocá-la. A tuba é um instrumento pelo qual ninguém se apaixona. As pessoas se apaixonam pelo saxofone e seu som sensual, pelo trumpete e seus toques triunfantes, até pela nobreza aristocrática das trompas, mas nunca pela tuba. Até o nome é pouco atraente.
De início o sujeito coloca aquela coisa - digo, aquele instrumento - no colo, meio ressabiado. Aprende a embocadura e tira os primeiros sons. Talvez tenha sido um trumpetista que não deu certo. Talvez em uma orquestra de menor porte tivesse a chance de tocar clarinete.
O fato é que, quando ele percebe, já está encaixando a boca naquele metal como quem encara uma gengiva banguela. Na verdade, isso é só uma imagem por demais forte para, talvez, causar algum impacto no leitor e assim sensibilizá-lo para o drama que vive este personagem. Mas uma amiga, que prefere não se identificar, afirma que namorou com um tocador de tuba e garante que ele beijava como ninguém.


Um pouco de históriaA tuba nasceu em Berlim, em 1835. Foi inventada por Wilhelm Wieprecht e construída por Johann G. Moritz. Como é conhecida nas orquestras e empregada até hoje surgiu em 1845, idealizada pelo belga Adolphe Sax, com três até sete válvulas que controlam as tonalidades.


Por incrível que pareça, alguns compositores importantes, como Berlioz, Wagner e Bruckner compuseram obras com solos de tuba. Tenho certeza de que o compositor inglês Ralph Vaughan Williams (1872-1958) foi um sujeito de moral intocável e sem nenhuma mania estranha, mas foi ele o autor do mais famoso concerto para tuba de que se tem notícia. Foi tocado pela primeira vez em 1954 pela Orquestra Sinfônica de Londres.


John Willians - aquele da música tema de Guerra nas Estrelas - , compôs um concerto em homenagem a Chester Smith, recém-aposentado tubista da Bonston Symphony e da Boston Pops, da qual Willians era regente.


Menos pops, há também a Sonata para Tuba e Piano, de Paul Hindemith, a Suíte para Tuba e Piano, de Gordon Jacobs, o Concerto para Tuba, de Edward Gregson e o Capricho, para solo de tuba de Krzysztof Penderecki. Todos pessoas, como diz o chavão, de conduta ilibada.
Não se pode deixar de citar o site do músico Gian Marco Aquino, tubista da Orquestra Municipal de São Paulo com material essencial para quem quer conhecer esse instrumento ou até mesmo dar os primeiros passos na arte de tocar tuba.


Depois de um tempoClaro que, depois de um tempo, o tubista se torna uma pessoa importante do ponto de vista logístico da orquestra. Só ele sabe executar seu instrumento com algum esmero e os responsáveis pelos outros sopros saberiam tomar o encargo apenas com metade de sua capacidade.


Consigo imaginá-lo, após os ensaios e antes dos espetáculos, a polir com uma flanela aquela que, com seu espalhafato, o torna notável. De fato, a tuba não é um instrumento pelo qual alguém se apaixona. Mas o tocador de tuba conhece nobres sentimentos.
Proponho, inclusive, que as bandas de rock substituam o baixo elétrico pela tuba, muito mais vistosa e aeróbica. Ela inclusive tem a vantagem entre todos os instrumentos de uma orquestra. Ela é o único com peso e resistência o suficiente para servir como arma de defesa sem se danificar seriamente caso seja usada dessa forma.Depois do ensaioDepois do ensaio, alguns músicos jogam futebol. No estojo da tuba, as luvas de goleiro.

FONTE: http://www.alessandromartins.com/

1 comentários:

Weslley disse...

rsrsrsrs... que ridículo. a importancia de qualquer instrumento e fundamental, claro que cada qual no seu lugar. julgar um instrumento pela sua aparencia, e futil, ate porque se analizar mos todos, não tem la uma beleza na sua forma... ah, deixa pra la!

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